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Inspiring Alumni - Ivânia Monteiro (Turismo)

Terça, 16 Outubro, 2018

Tive oportunidade de incluir na licenciatura a experiência Erasmus. Durante um semestre vivi e estudei em Dusseldorf, na Alemanha. A vivência pessoal de sair da nossa zona de conforto, quebrar barreiras da língua e da cultura/pré-conceitos que trazemos sobre os outros e as suas formas de estar e de ser na vida, foi absolutamente essencial no meu processo de crescimento como cidadã do mundo.

Ivânia Patrícia Redinha Monteiro é Licenciada em Turismo, pela Escola Superior de Educação de Coimbra e concluiu também o Curso Universitario Turismo y Cooperación Internacional para el Desarrollo, promovido pela United Nations World Tourism Organization (UNWTO) com bolsa de estudo integral da Themis Foundation.

Mestre em Gestão do Território, vertente Território e Desenvolvimento, pela Universidade Nova de Lisboa – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas.

Qual é a sua situação profissional atual?
Desde maio de 2011 que exerço funções de Coordenação Técnica na Agência para o Desenvolvimento dos Castelos e Muralhas Medievais do Mondego, um projeto territorial de cooperação entre municípios, entidades públicas e entidades privadas que se propuseram implementar em comum uma estratégia de desenvolvimento assente em fatores distintivos patrimoniais em função da existência de uma história comum, a da Linha Defensiva do Mondego.

Na Agência assumo funções de gestão técnica - planeamento, execução, coordenação e acompanhamento de projetos em diferentes domínios. A Rede de Castelos e Muralhas do Mondego constitui um esforço concertado de valorizar o nosso património, a nossa identidade e as nossas raízes. Ao longo destes últimos anos procurei encontrar caminhos alternativos, agudizar o espírito inventivo e proporcionar a um novo consumidor turístico “experiências” e não, simplesmente, visitas. Foi precisamente neste caminho que percorri com a Agência que fui encontrando e explorando diferentes campos do conhecimento, desenvolvendo competências que não se aprendem nos livros, mas apenas com a experiência “do fazer” se conquistam.

É-me particularmente difícil priorizar os projetos que testemunham o trabalho desenvolvido na Agência, mas enumero alguns:

- Coordenação (em fase de candidatura e de operacionalização) de diferentes projetos cofinanciados (RUCI – Rede Urbana para a Competitividade e Inovação “Rede de Castelos e Muralhas do Mondego, com três operações no valor de cerca de 1,2 milhões; Programação Cultural em Rede – Projeto “O ENREDO”; Produto Turístico Integrado “De Roma a Portugal – Uma viagem de 1500 anos”; Rota Carmelita; entre outros);

- Conceção, acompanhamento da produção e dinamização de diferentes suportes de cariz turístico (desde roteiros, filme promocional, áudio-guia, equipamentos virtuais, sinalética, etc);

- Conceção, operacionalização e dinamização de eventos de animação cultural como o “Música & Muralhas”, o “Ciência Viva nos Castelos da Rede”, o projeto cultural “O CASPIRRO”, o projeto cultural “O ENREDO”, o Raid TT Castelos e Muralhas do Mondego, dois colóquios internacionais subordinados à temática do património cultural, entre outros;

- Conceção, operacionalização e dinamização de concursos escolares, incluindo ações de divulgação e promoção escolares, criação de exposições alusivas, operacionalização de galas de entrega de prémios, entre eles o concurso “O Rei e Rainha do Mondego” em 2012/2013 e “Quem és tu D. Sesnando?” em 2014/2015;

- Conceção, operacionalização e dinamização do projeto sociocomunitário “Caixa de Memórias”, projeto que promoveu a recolha de património intangível por 15 IPSS’s e mais de 650 idosos, que resultou na criação de uma exposição dedicada, de um encontro com mais de 400 idosos, na criação de maletas pedagógicas, de um cd de música tradicional, entre outros;

- Desenvolvimento de diversos serviços educativos no âmbito do património medieval (designadamente com recurso aos suportes desenvolvidos pela própria Agência – livro e filme infantil “D. Sesnando, o herói improvável” e maquetes de castelo ficcional);

- Desenvolvimento de várias exposições orais dedicadas às maletas pedagógicas (nos concelhos da Rede, em Barcarena, em Évora) e dinamização de diversos serviços educativos com base nas mesmas (A título de exemplo, em 2017, no âmbito de um estágio curricular a Agência dinamizou as maletas com mais de 500 alunos, em 22 escolas do território da Rede; participou no projeto da APCC “Coimbra a Brincar” e desenvolve atividades de dinamização das maletas em contexto comunitário sempre que solicitado pelos Municípios, por exemplo no concelho de Pombal dinamizámos a maleta pedagógica do Bracejo no âmbito da Feira Nacional de Artesanato e Tasquinhas de Pombal em 2017 e na comemoração da Chegada da Primavera de 2018;

- Conceção, organização e desenvolvimento de diferentes ações de formação para técnicos da área da cultura e do turismo dos municípios associados da Agência;

- Organização de diferentes exposições temáticas (decorrente dos concursos escolares lançados pela Agência; exposição de fotografia no âmbito do lançamento de um desafio na National Geographic Portugal; exposição de biscoitos no âmbito do lançamento do concurso comunitário “Biscoito da Rede”);

- Escrita e coordenação de uma publicação infantojuvenil conjunta com o Exploratório Centro de Ciência Viva de Coimbra, intitulada “À Conquista dos Castelos do Mondego”.

Pode fazer uma descrição do seu percurso profissional após a conclusão do curso? 

Iniciei a minha atividade profissional em 2008, quando, após estágio profissional, fui convidada a integrar os quadros da empresa de consultoria ESSENTIA, no concelho de Lisboa. No espaço de quatro anos desempenhei tarefas de assessoria a diferentes projetos turísticos, centrando a minha área de atividade no domínio de projetos públicos. Foi esta experiência que me suscitou o gosto de trabalhar com as comunidades, em prol do seu desenvolvimento e na criação de propostas de enriquecimento conjuntas. Entre outros projetos, participei no Plano Operacional do Turismo do Alentejo, na montagem do projeto “Lousã, Destino de Turismo Acessível” e na montagem da Operação de Dinamização da Rede de Aldeias de Montanha.

Nos anos letivos de 2009/2010 e 2010/2011, exerci funções como assistente convidada em regime parcial na Escola Superior de Educação de Coimbra, assegurando as disciplinas de Turismo Internacional, Mercados e Produtos Turísticos e o Atelier de Legislação Turística. A docência foi uma atividade que me deu um grande prazer, sobretudo pela possibilidade de balancear os conhecimentos teóricos com a realidade do sector turístico.

Desde 2011 que me dedico exclusivamente à Agência onde trabalho.

Quais os momentos/experiências do seu percurso Académico que gostaria de destacar? 

Quinze anos volvidos desde a minha ingressão no ensino superior, falar sobre os momentos mais marcantes desta experiência académica implica abrir a caixa de memórias, recuar no tempo e sentir-me agradecida por todos os ensinamentos e partilhas.

Sair de casa dos pais, gerir pela primeira vez de forma independente as nossas rotinas, mudar-me para uma cidade como Coimbra… é, por si só, um marco para todos os que têm a oportunidade de vivenciar a vida académica.

Esta experiência, de liberdade e de responsabilidade, foi frutífera e feliz, também porque me senti, desde o primeiro dia, carinhosamente acolhida pela Instituição onde escolhi estudar, a ESEC. Neste mundo novo onde entramos, juntamo-nos aos nossos pares e neste contexto a praxe foi para mim uma experiência de incrível socialização, sem desrespeito ou abusos.

O curso é uma porta que se abre. Serve para nos sugerir caminhos, trabalharmos metodologias, agudizar o nosso espírito de trabalho conjunto, experienciarmos contactos com o mercado de trabalho.

Agrada-me sentir que hoje em dia continuo a admirar por alguns professores que cruzaram o meu caminho, com a plena convicção de que com os recursos que têm procuram no seu dia-a-dia dar o seu melhor para nos abrir horizontes. Os professores são, inevitavelmente, uma peça chave na projeção que o curso pode ter na vida de um licenciado. Vem-me agora à memória as aulas de legislação turística no antigo “Polo II” com a Professora Rosário Borges, uma das mais exigentes e melhores com quem tive a oportunidade de aprender…  Enche-me de saudades entrar numa sala de aula como aluna e ter um professor que partilha o que sabe, na expectativa de encontrar respostas mais completas para as perguntas que coloca com quem está sintonizado naquele tempo e espaço!

Hoje em dia continuo associada à ESEC sobretudo através dos projetos de colaboração que temos desenvolvido entre a Agência e o curso de Animação Socioeducativa. Ter a oportunidade de partilhar a conceção, produção e dinamização de projetos, como o das maletas pedagógicas da Rede de Castelos e Muralhas do Mondego, com a Doutora Rosário Campos, uma pessoa que começou por ser a nossa professora de História Local e Regional no curso de Turismo, é algo que me dá grande prazer, sobretudo porque me sinto capaz de retribuir à instituição que me acolheu a oportunidade de integrar projetos com utilidade real. 

Das etapas das quais mais tenho saudades existem duas que gostaria de partilhar.

Os múltiplos e sobrepostos “afamados” trabalhos de grupo, com horas infindáveis de encontros, onde fazíamos a triagem de quem queríamos ao nosso lado, para nos acompanhar no resto do caminho, onde trabalhávamos a capacidade de argumentar, de estruturar e planificar o trabalho, de dividir para reinar, de unir para ultrapassar situações mais complexas. Decorrente destes trabalhos, alguns deles multidisciplinares (os mais interessantes!), as várias visitas de terreno que tivemos de realizar por todo o país. Para mim é inesquecível uma visita que realizei a Alcoutim e a Mértola, para elaborar um roteiro de cariz muçulmano no nosso país. Não imaginava na altura, que anos mais tarde estaria a trabalhar turisticamente na temática/dinâmica cristãos-muçulmanos… 

Os dois estágios que a Licenciatura incluiu são também um marco. Em 2006, fui com outras três colegas estagiar para a Barroca, para o centro nevrálgico das Aldeia do Xisto, sediado no concelho do Fundão. Ficava a mais de três horas de distância da minha residência. No âmbito do Programa das Aldeias do Xisto, recebi uma proposta para elaborar o “Diretório dos Principais Recursos Turísticos do Território das Aldeias do Xisto”. Este trabalho permitiu-me conhecer vários concelhos, perder-me várias vezes sozinha na região Centro à procura de um museu numa aldeia remota, obrigou-me a quebrar barreiras na comunicação, estruturar discursos, desenvolver o à-vontade de abordar pessoas e de com elas atingir um objetivo a que me tinha proposto. Em 2007 fui estagiar na empresa de consultoria em turismo, a RDPE, S.A., em Lisboa. Os primeiros momentos foram difíceis. Nunca mais me esquecerei que a minha primeira tarefa passou por desenvolver um estudo das doenças cardiovasculares na região Centro! Foi com os colegas desta empresa que desenvolvi diferentes competências, aproximei-me da dinâmica da montagem de candidaturas, aprendi a estruturar e defender reflexões.

Durante o curso realizou uma experiência Erasmus. Qual a avaliação que faz dessa experiência? 

Tive oportunidade de incluir na licenciatura a experiência Erasmus. Durante um semestre vivi e estudei em Dusseldorf, na Alemanha. A vivência pessoal de sair da nossa zona de conforto, quebrar barreiras da língua e da cultura/pré-conceitos que trazemos sobre os outros e as suas formas de estar e de ser na vida, foi absolutamente essencial no meu processo de crescimento como cidadã do mundo.

Durante o tempo que estive na Alemanha fiquei numa residência com estudantes internacionais provenientes de diferentes países do mundo (Espanha, Rússia, Bangladesh, Turquia, Itália, Polónia, Índia…). O meu quarto era ladeado pelo quarto da Verónica, das Ilhas Canárias, e pelo quarto da Laxmi, da Índia. Partilhávamos a cozinha, a lavandaria, as idas e vindas para o centro de Dusseldorf. Cheguei a um domingo à tarde. Não existiam restaurantes ou cafés abertos por ali e os supermercados estavam todos fechados. Tive de bater à porta do quarto do lado e fazer-me convidada para jantar! Desenvolvi muito mais o meu castelhano e inglês do que propriamente o alemão. Aprendi que comer à mão tem técnica e vivi com elas, pela primeira vez, o prazer de ver nevar e sair à rua para apreciar e divertir-me com isso. Comi pela primeira vez um verdadeiro kebab turco, bebi vinho quente no mercado de Natal e fui ver um jogo de futebol com a seleção nacional!

A nível académico foi uma experiência extenuante. Ia com a incumbência de cumprir com o número de créditos que necessitava para não ter de repetir cadeiras quando regressasse a Portugal. Na prática não existiam muitas equivalências que se pudessem estabelecer entre as duas instituições parceiras, entre o curso em Portugal e na Alemanha, quer na terminologia das cadeiras, quer nos próprios conteúdos, sobretudo no número de créditos a que cada cadeira correspondia. Isso levou-me a perceber que num semestre tinha de concluir com êxito 11 cadeiras, num idioma que não era o meu. Depois de ultrapassado o pânico, foi pôr mãos ao trabalho e aproveitar todo o conhecimento que me ia sendo transmitido. Foi na Alemanha que me apresentaram o conceito de “Patient Hotel”, um conceito que curiosamente acabei por trabalhar no meu primeiro projeto de consultoria em Lisboa para o qual tive de analisar os tais registos das doenças cardiovasculares… As metodologias de ensino são diferentes, as pessoas e a sua multiculturalidade também. Regressei com a sensação de dever cumprido e de ter uma bagagem maior do que aquela com a qual cheguei ao aeroporto de Munique.

 

Que sugestões gostaria de dar para melhorar a ESEC? 

Relativamente à Licenciatura, receio que as sugestões que tinha para dar, enquanto aluna, são agora extemporâneas. O Polo II foi desativado, incluíram outras línguas estrangeiras no curso e o “processo de Bolonha” alterou certamente a metodologia de ensino. Não acompanho de forma regular a Escola, pelo que me é difícil tecer considerações, muito mais sugerir melhorias.

Não obstante, existem algumas premissas que me atraíram para esta instituição que creio que devem ser mantidas no curso. A abertura ao exterior, ao mercado de trabalho ou com entidades com as quais se colabora em projetos pontuais com os alunos, as oportunidades de estágios em contexto de trabalho, a existência de trabalhos multidisciplinares, as idas ao campo/visitas, são tudo aspetos que, a meu ver, deveriam ser mantidos e aprofundados.

A ESEC beneficia muito por estar numa cidade académica como Coimbra. Mas o ensino politécnico, sendo um ramo vocacionado para o saber-fazer e para a interligação do meio académico com o domínio do mercado de trabalho, não pode perder de vista o que o diferencia efetivamente do ensino universitário tradicional. A boa prática, tendo por base a melhor das mães teóricas, só ganha substância se realmente tem palco de ação.

Entendo, também, que a ESEC beneficiaria de forma decisiva se as diferentes licenciaturas que integra colaborassem no plano efetivo umas com as outras. Não existe turismo sem comunicação… A animação não deveria pressupor também a competência teatral? Fundir competências, e não apenas agrega-las, parece-me que poderia ser uma carta diferenciadora da ESEC no contexto do ensino atual.

Que conselho daria a um atual aluno de Turismo para uma melhor integração no mercado de trabalho? 

Dedicação e trabalho, na mais simples tarefa que se faça.

 

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